

CONTRA

Que tamanho tem o desejo fúria que arranca o gozo que não tem controle? O que alimenta o delírio de ter e não ter? Como é que se sacia uma vontade que não tem lugar? Nem tempo? O que tem? É no encontro da tua força e da minha vontade de ser forte no poder de me dar, de ceder, de entregar. Papéis. Eu posso quase todos, mas prefiro as folhas em branco se oferecendo aos teus pincéis e versos. Me rabisque da tua língua de fera, dos teus dedos ápices, da tua fome voraz. Incisiva como a intensidade que me divide ao meio. Há o sangue que corre nas veias e não quer parar. Há a liberdade de poder tudo dentro de mim. Quer? O que quer? Eu te prometo quase todos os pecados carnais. Todos os que sei na carne que quero contigo. Olhe aqui. Toque aqui. Sinta o poder que tem. Que me tem. Tudo porque você me revira as entranhas e me deixa em estado de choque. Tudo porque eu sei que conheço os teus caminhos até minha cama. E você percorre todos seguindo minha voz (dentro do teu ouvido você sabe o que eu digo). Conhece as minhas palavras todas, as minhas maldades distantes e os meus sabores mais íntimos. Inspire. O ar entra repleto dos meus gemidos... E pra onde vai? Por onde sai? O que te aquece aí dentro? Que nome tem o que sobe pela tua pele na minha, crava os dedos nas coxas tensas e te invade entre as pernas te tirando do centro? Não? Venha e se encoste a mim. Eu quero você resvalando os meus domínios de água. Eu quero o idêntico do teu corpo adesivo no meu. Venha e se acomode escorregadia nas minhas intimidades brilhantes. Eu quero a tua força me pressionando, te pressionando. Contra. Eu quero ouvir você dizer de novo que vai gozar em mim. E ser verdade. E escorrer teus sumos doces e preencher meus sulcos. Eu quero o teu encaixe de fogo. Eu quero as tuas densidades nas minhas e o fim da distância. Tão perto quanto é intenso.
PROFUNDO
Do gosto das coisas que se pede sem dizer. E da língua invasora e dos dedos ágeis na carne tensa. Intensa. Do fechar dos olhos e curtir. E as mãos escorrem pelas costas deflagrando sonoros poemas lúbricos. É o ter na pele e querer na carne. Desprendendo das veias o rubro dos lábios secretos. E afasta, delicada, as divisas. E expõe e mergulha, nos entres profundos, nos dentros molhados, nos desejos ocultos sob a pele. E desliza por caminhos outros, colhendo dos sabores e mistérios que ela tem. Cada um dos óbvios e todos os demais. Da pele colada na pele, do denso pedindo pra entrar, dos olhos dançando nas ondas das curvas mais belas. E a respiração suspensa pela urgência de senti-la derramar.

FEMININO

Há um cheiro doce dos poros e um gosto que penetra na língua. Há as curvas e as pequenas marcas na pele e os dedos que se embaralham nos meus e a palma quente da mão. Há o silêncio e a frase curta e profunda que diz e que chama. Há o espelho íntimo do outro ser como eu e ser diverso e ser igual e ser outra e não outro. Há sempre o beijo do encaixe. Há a pele macia na minha e um trajeto de mãos pelos desenhos do corpo. Há o ventre e os seios e as coxas afastadas e o abismo das costas. Há o doce e há o forte. E os olhos nos meus bem dentro, buscando as cores e o que há por trás, por dentro e no fundo. Há o novo no outro. Há a força do gozo e a sutileza dos dedos percorrendo caminhos. Há a língua nas fendas ocultas e há o abraço quente do seio no meu. E olhos que chamam pra perto. Há cachos nos cabelos e línguas espirais. E sempre estão lá as palavras não ditas. E depois derramando vermelhas sobre o papel que não há. Há os ciclos e as feminices nossas. Há a circularidade simultânea das ondas que saem da minha boca para o teu sexo e da tua boca para o meu. Círculo de fogo vertendo água. Há o tatear do corpo novo e o degustar de cada sabor. Há as cenas fixas no fundo dos olhos (e há os desenhos na memória e os flagrantes de belezas em gotas nos gestos, nas cores, nas formas). E há os sons do sexo e a voz feminina mostrando que quer. Há os lábios nos bicos e os dedos afastando os cabelos e desnudando a vontade de ver. Há as línguas tocando as pontas. Há a fome do gozo da outra. Há o feminino que invade o corpo também. Penetra e ocupa e se perde. Há os verdes, os rosas, os vermelhos e o que brilha na ponta dos dedos molhados. Há a mistura homogênea e as soluções alquímicas. Há o encontro dos semelhantes e as tantas possibilidades. Há o domínio, a força, o poder e há a reciprocidade e o equilíbrio. Há uma língua na minha e dedos que me transpassam. Há trinta e cinco mil beijos e a mão deslizando sutil entre os cabelos. Há o gozo. Os. E há, sempre, a vontade de não ir.
FÉRIAS
Hoje o dia passou colorido. Escolhendo cadeiras vermelhas, arremessando bolas multicor em pinos insistentes, esvaziando tulipas douradas. Domingo dos pequenos prazeres da vida. E amigos. Férias rápidas na terra da garoa. Dias de deleites preguiçosos e encontros prazerosos (mesmo o todo especial que não foi - conspiração das agendas e do hard work nosso de cada dia - continua sendo do top list dos prazeres da carne e de todos os outros ao teu lado). Madrugada de quinta-feira no inverno ártico da Paulista e perambulando perdidas pela cidade alheia atrás de um locus para o que realmente importa na vida (sim, eu sempre exagero na importância de certas coisas importantíssimas). Sexta-feira dorminhoca e de risadas enchendo os ares, os copos, a vida. Porque amigos são poderosos em nos fazer lembrar quem somos e a que viemos. Sábado inaugurado por uma ciocolatta fervendo olhando a praça das antiguidades se aquecer e se colorir para um dia inteiro de paulistices gostosas. E o resto do dia para a preguiça, a leitura e os devaneios de sempre (desejos que perduram e que gotejam teimosos no meio da minha testa - certas torturas são tão desejáveis!). Uma noite de encontros virtuais de fazer inveja à realidade do entorno (certas queridas deveriam ter passe livre nas companhias aéreas para dividir um choppinho, um café, um sofá macio em noites risonhas de sábado). De geringonças sexuais portáteis a mulheres nuas trancadas para fora na chuva, nada escapou ileso à convenção das bruxas do meu PC. E agora a mala pronta para retornar à casa com uma certeza tão boa de que qualquer lugar é lugar. Porque o que é bom, carregamos. Portáteis. Indispensáveis. Sempre... E Salvador talvez nem seja mais tão desconfortável. Porque, enfim, os livros já já estarão de novo nas caixas. E eu seguirei, nômade. E tudo bem...
O post é diferente, mas, no cerne, é tudo a mesma coisa. Desejo e Prazer (com P maiúsculo sempre). E justifica a ausência sentida (ao menos por mim). E homenageia as companhias queridas desses dias de São Paulo...