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Houaiss




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FOCO
 
Imagem embaçada na retina. O tempo vai envelhecendo a memória em sépia. O que impede é o medo do ver e não tocar aflito. Decorei os contornos da tua boca, mas há meses. Eu te espio em exibicionismo inédito, você diz em letras. E eu exercito meu voyeur oculto. Quero dedos de te alcançar aí. Dedos teus aqui e dentro. Quantas páginas de tua letra azul misturada nas minhas negras? E teus traços seguem atrás da janela de vidro. E as curvas minhas. E as contundências tuas. É sevícia e é carícia. Paradoxo que pulsa entre as pernas. Há o abrir e o afastar e o dar a conhecer. O lado de dentro que eu toco e você quer tocar. Tua mão que segura o que minha boca quer. Quer teu beijo, quer você, quer teus sabores. Transcende o impenetrável e goza dentro de mim. De você. Sentir sem sentir, sem sentido. Mas é.
 



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BOCA
 

 
Tua boca-expedição circunscreve meus limiares de controle. Cerca minhas fronteiras de defesa e invade minhas trincheiras de proteção. E a tua língua rodopia sobre minha sanidade. E os teus lábios me arrancam gemidos e marcas na pele. Suga. A tua força desejo me abre e me rende. Eu exposta sou tua, fruta vermelha se desfazendo em sumo à primeira mordida. Lambe. E a tua língua me desliza e me tangencia, mas também me penetra profunda. Densa me invade. Frente e verso. E me destila e me liquefaz. Lábio a lábio me torturando. Da força que eu gosto na carne nua. Desnudando lençóis freáticos com teus dentes imoderados. Tua boca ata-me. E as mãos afastam e os dedos abrem e a língua toca. Túrgido sinal de alerta. Antever-te mergulhada na tarefa de me consumir (tem me consumido esse desejo). E abertas pernas e lábios e vem e chupa e faz. Desígnios de gozo em ondas sobre a cama. Escapam pelas dobras e ganham coxas. E alagam língua e lábio e céu da boca. E bebe.


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LIBER

Vem e diz aqui bem perto. Tão perto que minha pele te ouvisse calada. Te quero. Liberdade. E que da tua boca, tão próxima dos meus desejos úmidos, só saíssem sons de sins e sins e sins. E teus lábios estivessem nos meus. Aqui e ali. E teus olhos revirassem minhas curvas e teus dedos cravados na carne. Violentos e intempestivos feito água arrebentando os diques. Libertinagem. Eu peco, tu pecas. Te absolvo entre minhas pernas se me beijares a boca todas as vezes depois do gozo. E todos profusos, profícuos, prolixos. Vem te certificar das tuas memórias de pele. Vem redescobrir o cheiro, o gosto, o tato. Vem me ouvir te chamar. Mais. Aqui. E aqui também. Liberaleza. Vem que o teu descanso é em mim. Repousando trêmula dentro da minha boca. O coração batendo no meu. Dentro de mim ainda. A noite toda liberta. Te. Dentro de mim ainda. Uma vez mais. E outra. E outra. Dorme aqui misturada de prazer. Revirada por dentro. Tua desordem na minha cama.



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HIPERAFRODISIA
 

 
Há ciclos e ciclos e ciclos. E ciclones vermelhos. Idas e vindas de uma coisa qualquer que eu chamo desejo e que são muitas pequenas vontades nos rodamoinhos sob a pele que é minha. Só. As minhas sinestesias do cheiro do sexo na língua, do gosto de dedos dentro de mim, dos sons macios da pele na pele. Fantasias superlativas tingindo o real das tintas minhas. Intensas na medida em que eu sou. São? O desejo crônico que agudiza. Latência que não mata. Fisga. Obsidia. Mas sabe que é devaneio, que é criação. Taquicardia, taquipnéia, hiperestesia, alucinação. Meus sentidos alterados me ludibriam com meu consentimento explícito. Consentimento despido das vestes puras, da razão sensata, dos cintos de segurança, da realidade morna. Quero a profudidade para além do que a mão toca. A carne rubra vertendo água. O gozo que é só aqui. Eu quero as palavras ditas com todas as letras maiúsculas dentro dos meus olhos abertos. Quase tudo por certos prazeres. Quase. O meu desejo de origens incertas tateia no escuro e não acha. É tátil sim. Mas é também da volúpia do intelecto. Exige admirar. Ele rabisca frases sem destinatário no papel sobre a mesa úmida. Ele fala para si delirante. Origem e destino. Causa e efeito. Autolimitante. Ilimitado.


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